EM LINHA DE ESPERA

Os serviços de saúde são bens primários que devem estar ao alcance de todos. Ou assim deveriam, não fosse esta uma realidade longínqua para alguns. No Alentejo, existem aldeias cujo acesso à saúde é ainda feito de forma precária.


Em Moura, concelho pertencente ao distrito de Beja, as infraestruturas de cuidados de saúde disponíveis à população podem contar-se pelos dedos das mãos: centro de saúde só há um, que se estende às sete freguesias – Póvoa de S. Miguel, Estrela, Amareleja, Santo Amador, Safara, Santo Aleixo da Restauração e Sobral da Adiça. De apoio a estas, existem também unidades somente com um serviço de urgência avançada e uma ambulância INEM com Enfermeiro e Tripulante em Permanência.

Segundo dados pertencentes ao Relatório do Diagnóstico de Moura de 2018, numa cidade onde, no mesmo ano, existiam cerca de 14.654 utentes inscritos no Centro de Saúde de Moura, este cenário adquire contornos preocupantes. Mais ainda se considerarmos o facto de que os equipamentos de saúde, como as farmácias e as clínicas, se localizam tendencialmente em Moura, pelo que as freguesias com menor concentração populacional, e que, por sua vez, possuem uma população mais envelhecida, não têm um fácil acesso a estes cuidados.

Na aldeia de Santo Amador, pouco passava da hora de almoço e o vento já transportava as lamentações da população, deixando-as escapulir-se por entre a pedra das casas e ecoar pelas ruas.


AS LAMÚRIAS

Mariana Batista foi a primeira a partilhar o seu desabafo. Sentou-se à mesa, entrelaçou as mãos uma na outra e assim permaneceu durante quase toda a entrevista. Começou por contar a sua história com um grande sorriso nos lábios. Embora tenha nascido em Santo Amador, deixou a aldeia aos 47 anos.

Partiu para a Suíça, onde viveu por 16 anos. Não tivesse sido esta mudança e não receberia reforma alguma. Ao mencionar este tópico, o sorriso outrora presente nos seus lábios desaparece e um semblante sério toma conta do seu rosto.“Mandaram-me uma pequena reforma de lá da Suíça, porque eu lá trabalhei. E aqui, até agora, ainda não me deram um tostão em Portugal."

Mais acrescenta ao contar que aos 85 anos a única coisa que recebe de Portugal é a isenção, agradecendo por isso a uma médica de Lisboa que, quando Mariana teve um tumor no peito, passou-lhe uma carta a pedir a isenção para o tratamento.


Quando questionada acerca das suas condições de acesso à saúde, Mariana levou a mão ao queixo. “As minhas condições são estas, não poder já fazer certas coisas, e ter que meter uma mulher de 15 em 15 dias ou de mês a mês, conforme tenho falta, porque estou sozinha.” E o assunto por aí não fica. Até para se deslocar à unidade de saúde, relata que precisa de pagar um carro de praça, porque o marido, que até há dois anos ia consigo para todo o lado, teve um tumor no fígado e já não pode entrar em esforços.

Contou-nos ainda que a aldeia só tem uma única médica de família, a doutora Lurdes, e que, apesar de esta fornecer credenciais para os isentar de pagar exames, tal coisa não é regra geral. “Eu precisei da fisioterapia para o joelho e ela não passou as credenciais e ainda fui a fazer seis sessões. Estavam cá as minhas filhas e foram comigo a Moura e eu depois tive que as pagar. Eram cento e tal euros. Eu tinha doze marcadas, mas não as pude fazer porque eu não podia pagar.” É aqui que se percebe que nem mesmo a isenção lhe é realmente proporcionada por Portugal.

Relativamente às consultas, contou que precisa de ir ao centro de saúde regularmente, algo que ainda consegue fazer graças à ajuda da canadiana. No entanto, a própria médica de família só se dirige ao centro duas vezes por semana: às terças e às quintas-feiras. Como se isso não bastasse, o tempo que aqui fica é de cerca de duas horas. “Vem às duas e meia, e depois às vezes é conforme também há pessoal. Entre as quatro/cinco horas vai embora.”

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“Acho que devíamos ter mais assistência. Porque a gente não precisa só dois dias por semana, a gente, muitas vezes, precisa mais, mas pronto... pessoas como nós não podem fazer muito.”

Mariana Batista, 85 anos


Conta-nos assim que não considera ter a assistência médica de que necessita. “Precisava de ter, mas não sei como”. Mariana acredita que algo que poderia mudar seria a médica mandá-la fazer coisas que não precisasse de pagar, trazendo novamente o exemplo da fisioterapia. “Eu tinha muita falta. E eu não pude pagar, não pude continuar.”

Até para fazer a operação ao joelho, que partiu há cerca de dois anos, Mariana relata que teve que ir de ambulância até ao Hospital de Beja, e é aqui que nos dá a conhecer outro problema: É a médica de família quem deve fazer o pedido para chamar as ambulâncias ou, caso contrário, a população vê-se obrigada a pagar o transporte. Transporte esse que custou 200 euros quando o marido precisou de ir ao Curry Cabral, em Lisboa, que era o único hospital onde lhe faziam a operação de que necessitava. Se a médica não estiver presente, a alternativa da população é ligar para o INEM, e aí “Os bombeiros demoram.”

Estas situações preocupam as filhas de tal modo que estas chegam a vir muitas vezes da Suíça para ajudar os pais. “Mas não podem estar cá muito tempo, têm as suas obrigações.”

Desabafa ainda que o confinamento foi um período muito complicado. Apesar disso, afirma que teve pessoas amigas para ajudar. “Deixavam-me as coisas à porta.” Quando apareceram os primeiros sintomas, dirigiu-se à médica e contou-lhe que o marido estava muito doente. Pediu-lhe que o fosse ver, mas a médica negou-se. “Eu agora não posso lá ir. Eu agora não posso ir a lado nenhum e nem ele pode cá vir”, disse Mariana tentando imitar a doutora Lurdes. Com isto, a médica limitou-se a telefonar para o centro para marcar um teste de Covid.


"O médico disse-me que já não me receitava óculos porque tenho que fazer a operação às Cataratas e não valia a pena estar a gastar dinheiro. E pedi-lhe urgente e até hoje ainda não apareceu."

Maria Monteiro, 69 anos


Na casa do lado, quem nos recebe é Maria Monteiro, uma senhora de 69 anos que partilha da mesma opinião que a vizinha Mariana. Chegando ao quintal, puxou uma cadeira e ajeitou o xaile, preparando-se para a conversa que pouco depois começava. Contou-nos que cresceu em Santo Amador e ali esteve durante toda a vida. A médica de família trata-se de Lurdes Sá, que tal como Mariana Batista dissera, era a única que a aldeia tinha.

Questionada sobre a existência de razões de queixa nos acessos à saúde, Maria parou, pensativa, antes de responder. “Quer dizer, não somos logo atendidas”, disse por fim. Como exemplo, alegou que tinha ido a Moura para fazer um exame à vista e o médico que a atendeu não lhe receitou mais óculos porque tinha que fazer uma operação às Cataratas. Precisava deles com urgência, isto já há quatro meses. Até então, nem operação, nem óculos. Sabe, no entanto, que a operação será no Hospital de Beja. Sobre este facto demonstra grande preocupação, pois não tem transporte e acredita que para isso não lhe passam ambulância.

Além do problema na vista, Maria está a ser seguida na psiquiatria em Beja. Ou deveria estar. As consultas, que eram de três em três meses, passaram para de seis em seis, e com a pandemia são agora realizadas por telefone. A questão é que Maria perdeu o contacto da médica quando trocou de telemóvel e, por esse motivo, não tem tido acesso às consultas.

Conta ainda que, quando partiu o braço, dirigiu-se com o marido até ao Centro de Saúde de Moura e acabou por ser levada de ambulância para o Hospital de Beja para fazer um raio X. As consultas que daí resultaram foram todas realizadas em Beja. “Fiquei a ser tratada lá em Beja, então foi em Beja que fiz tudo."

Apesar da longa distância, o médico, que lhe receitou fisioterapia, passou-lhe uma credencial para poder ir na ambulância dois dias por semana, durante os cinco meses de tratamento. Comparou este médico à médica de família, dizendo que, apesar de a última ser médica de clínica geral, esta só passava receitas, e não tinha a prestação mais presente.

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Em relação aos familiares, a filha que mais a apoia vive em Lisboa, e o marido só a acompanha quando Maria não tem com quem ir às consultas cujo processo de marcação é bastante complexo. Para marcar uma consulta, a população deve dirigir-se ao Centro na primeira terça-feira do mês, sendo este o único dia para marcar as consultas para o resto do mês. Se a pessoa adoecer, ou acontecer uma urgência, corre o risco de não ser atendida. “Eles dizem que há três urgências se não houver muita gente, mas temos que ficar para o fim da consulta”. Esta situação entristece-a.

“A gente não sabe quando vai estar doente, e às vezes está doente e vai e não apanha consulta.”Além disso, trata-se de uma situação recorrente, quer pelo facto de a médica de família permanecer apenas duas horas no centro, como por existir o limite de três urgências. “Se houver, por exemplo, três urgências, ela ainda faz, mas o resto não faz, manda para o outro Centro de Saúde.”

Além do Centro de Saúde, também a farmácia só está aberta duas horas por dia, das 10h30 até ao meio dia e tal, e mesmo assim muitas vezes não têm os medicamentos de que precisa. “Os meus medicamentos dos nervos às vezes vou buscá-los e não há. Depois trazem no outro dia.”


"Às vezes gostaríamos que nos dessem mais atenção, mas sabemos que é muita gente a precisar. Eu acho que deviam fazer um horário normal."

Mariette Guerreiro, 78 anos


A umas ruas de distância, foi a vez de Mariette Guerreiro abrir-nos a porta de casa e sentar-nos à sua mesa. Nascida em Santo Amador, aí viveu até aos onze anos, altura em que foi estudar num colégio em Moura. Depois disso passou também por Beja, tendo retornado para Santo Amador no primeiro ano em que exerceu enquanto professora do ensino básico. Passou por outras terras durante o seu percurso, e retornou novamente à aldeia para terminar a carreira profissional, onde permanece até aos dias de hoje.

Sobre a vida em Santo Amador, contou-nos o que já tínhamos ouvido de Mariana Batista e de Maria Monteiro: médico de família só o têm duas vezes por semana. Gostava que lhes dessem mais atenção, mas tem consciência de que é muita gente a precisar deste tipo de cuidados. Acrescenta que devia pelo menos haver um horário normal, e que se há uma crítica que tem a fazer é relativamente à marcação de consultas.

“Quase que nos exigem que marquemos consultas no princípio do mês, ora, como é que nós vamos a uma consulta? No princípio do mês, se estamos doentes não arranjamos vaga, e no fim do mês podemos já não estar doentes.” Acaba por dizer que as consultas devem ser marcadas na véspera, ou até mesmo no próprio dia. Se assim fosse, as duas vezes por semana seriam suficientes.

Admite que, a seu ver, não estão mal de todo, têm direito a uma médica de clínica geral e a uma enfermeira que lhes dá apoio, mas seria importante alterar algumas coisas. “Ainda há 2 meses fui ao Centro por causa de uma marcação de consulta e cheguei, fiquei mal disposta e a médica imediatamente me levou para Moura, por isso não há problemas.” Mas acredita que, se a médica não tivesse assistido à situação, tinha que lhe pedir para ver se ela considerava haver motivo para chamar uma ambulância.

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Outra queixa que tem a fazer deve-se ao facto de não existir qualquer tipo de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico sem ser em Beja. Mas nem tudo são críticas e Mariette apreciou o facto de a autarquia ter ajudado, no âmbito da vacinação, aqueles que não tinham transporte.

Tem a lamentar a falta de recursos humanos da aldeia, porque embora as pessoas se ajudem umas às outras, pouco podem fazer quando alguém está doente. Conta que, no seu caso, o máximo que pode fazer é metê-las no carro e levá-las ao Centro de Saúde, algo que, aliás, o seu pai já fazia.

Apesar disso, vê-se grata pela existência da médica de família. “Eu às vezes ouço na televisão dizer que passam tempos e tempos sem terem médica e nós aqui temos duas vezes por semana. Uma população de 300 e tal pessoas.” Conta-nos que houveram tempos, já há mais de vinte anos, em que a aldeia tinha um médico todos os dias. “Mas isso era uma exceção. Eu acho que ele fazia isso voluntariamente”.

Ainda a falar de tempos passados, Mariette explica que com o aumento do número de carros particulares, os autocarros foram diminuindo, e agora praticamente só servem para levar as crianças à escola. Por essa razão, se alguém precisar de ir a Moura deve ir de carro particular, ou chamar um táxi ou uma ambulância. “O autocarro daqui em situação de doença pouco serve a não ser uma pessoa que queira ir no autocarro e sujeitar-se a estar lá... Ir de manhã e voltar à tarde.”

Já no final da conversa recordou, com nostalgia, os momentos que viveu com o pai, com quem sempre partilhou o gosto de ajudar os outros.“Já vem de tradição da minha casa.” Conta que havia situações, quando ainda não havia telemóveis, em que as pessoas iam a sua casa para avisar que os familiares iam telefonar e perguntar se podiam ir atender a chamada.

“Chegamos a vezes de não sair porque íamos receber as pessoas.” Além disso, lembra-se de o pai ir todos os dias a Moura, mas muitas vezes não ia lá fazer nada, ia só para ajudar. Agora, conta, já é diferente: “As pessoas estão todas, além de mais bem informadas, com mais facilidade em terem meios para poderem deslocar-se.”

A PREOCUPAÇÃO

Mesmo para os que estão fora, a preocupação é sentida. 

Marianita, como a mãe lhe chama, é filha de Mariana Batista. Aos 49 anos, divide o seu tempo entre a Suíça, país onde vive, e Portugal, onde estão os pais. Conta-nos que é complicado ajudá-los quando se vive tão longe e, que, por isso, a solução que encontrou, em conjunto com as duas irmãs, foi a de pedir a pessoas de sua confiança para o fazerem por elas.

“Certas vezes temos que pagar, mas ao menos há possibilidades na terra de as pessoas poderem ajudar, visto nós não podermos sempre ir com os meus pais ao Centro de Saúde ou hospitais.”

A frequência com que os visita, infelizmente, também não é muita, mas é aqui que a entreajuda das irmãs ganha força. “Tentamos sempre ir no mínimo duas vezes por ano, se não for necessário mais." Acrescenta que, como sabe que a mãe tem sempre exames a fazer em Évora ou em Beja, derivados de um grave problema de saúde que esta teve, marca-os para o verão, altura em que a visita, para ter a certeza de que a consegue acompanhar.

Conta-nos ainda que já aconteceu uma urgência e viu-se obrigada a deslocar-se para Portugal em 48 horas. Apesar de trabalhar num escritório, fator que facilita a deslocação, na medida em que pode exercer a sua função em teletrabalho, esta situação acaba por afetá-la, principalmente pela diferença do fuso horário.“Eu tenho muitas reuniões de manhã e tenho sempre que começar a trabalhar muito cedo.”

Além disso, como não pode trabalhar enquanto acompanha os pais às consultas, já chegou a trabalhar até às duas da manhã para compensar o trabalho que não realizou durante o dia. É um pequeno sacrifício que tem que fazer para o bem dos pais. “Por agora é possível para mim. Para as minhas irmãs já não é.”

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"O que me preocupa é, realmente, a falta de médicos que há na terra porque com a idade que os meus pais têm, não é fácil deslocarem-se e irem a certos sítios."

Mariana Valente

49 anos

A sua maior preocupação assenta na falta de médicos da aldeia. Para exemplificar, relatou que, no dia anterior, tinha falado com a mãe e descobriu que esta passou a manhã à espera de médico e que o mesmo não apareceu. Iria tentar a sorte outra vez de tarde.“Pessoas de idade terem que estar ali à espera uma hora ou isso e depois notarem que realmente a médica não vem, que ninguém informa que a médica não vem, a mim isso faz-me realmente muita confusão.”

Realçou ainda um problema que já nos tinha chegado: a marcação de consultas que é realizada unicamente no início do mês. Isso não lhe faz sentido, porque as pessoas que não estão doentes continuam a ir às consultas, no entanto, quando alguém adoece, corre o risco de não conseguir vaga para ir ao médico. “É totalmente absurdo ter que se adivinhar se vai estar doente este mês ou não.”

Outro problema que aponta é que, com tanta espera, as pessoas acabam por desistir de ir ao Centro de Saúde. Dá-nos o exemplo do seu pai, que praticamente já não vai ao médico porque acha demasiado complicado. Conta também que este ano foi com a mãe à fisioterapia, a um médico privado, para que esta pudesse começar a terapia o mais depressa possível. No entanto, como já não podia continuar a pagar, dirigiu-se ao público com um relatório para pedir uma credencial de modo a poder terminar as seis sessões que lhe faltavam. A médica recusou-se a passá-la, alegando que a senhora não se dirigira ao médico onde a tinha mandado.

“Porquê mandar a minha mãe para o hospital de Beja a fazer exatamente a mesma consulta só porque o médico não é privado? Não faz sentido nenhum, porque o relatório ela tinha, não é como se eu tivesse decidido «Olha, a minha mãe agora vai fazer fisioterapia».” Continuou dizendo que o tratamento da mãe foi todo por água abaixo ao fim de 2 semanas, e tudo porque a médica se recusou a passar uma credencial e não tinha dinheiro para pagar as consultas no setor privado.


Ainda sobre as dificuldades vividas pelos idosos no acesso à saúde, Marianita, também conhecida como Mariana Valente, menciona o facto de ser necessário fazer-se coisas pela Internet, um mundo muito desconhecido para estas pessoas. Além disso, recorda o momento em que a mãe telefonou para fazer uma marcação e quem lhe respondeu foi o atendedor automático. “Lembro-me dela me dizer «Eu telefonei, a senhora falou e depois olha, já não falou», porque não se apercebia que era uma máquina.”

Como deixou Portugal aos 12 anos, Mariana não conhece bem o Estado português, mas atribui-lhe a culpa pelo que se passa na aldeia. No lugar onde vive, afirma que é muitas vezes o Estado ou os serviços autárquicos quem têm que decidir sobre as questões da saúde. “Esses meios mais pequenos não deveriam ser esquecidos e eu acho que muitas vezes eles são totalmente esquecidos.” Por esse motivo, Mariana acredita que a aldeia devia ter um escritório aberto, um local onde as pessoas pudessem se dirigir para obter ajuda e informações. 

DO OUTRO LADO DA LINHA

Do outro lado da linha encontramos a Maria Ventura e o João Ramos, dois profissionais de saúde.

Maria Ventura, tem 50 anos e é enfermeira no Hospital do Litoral Alentejano em Santiago do Cacém. Ao longo da sua carreira, Maria trabalhou em várias especialidades, como nos serviços de neurologia, otorrinolaringologia e ainda na unidade de cuidados intensivos, onde permaneceu 14 anos. No entanto, conta-nos que, com o passar dos anos, se viu confrontada com lesões agravantes do excesso de trabalho, tendo assim de pedir transferência há dois anos para o serviço de consultas externas. Antes de se fixar no hospital onde atualmente presta serviços, Maria trabalhou no Hospital de São José, em Lisboa, e no antigo Hospital de Santiago do Cacém, o Conde do Bracial. 

João Ramos, de 49 anos, exerce também a profissão de enfermeiro. Atualmente trabalha no Centro de Saúde de Moura, mas já esteve mais longe de casa. Ao longo da sua carreira, trabalhou no Algarve, e depois em Mértola, tendo sempre exercido a sua atividade nos cuidados de saúde primários. “Nunca trabalhei num hospital, foi sempre em centros de saúde. A minha experiência de trabalho é sempre em cuidados de saúde primários porque é aquilo que eu gosto e onde me sinto bem.” Explica esta preferência contando que, nos cuidados de saúde primários, a vertente da relação social e afetiva são cruciais na relação terapêutica para ajudar os pacientes na sua recuperação, enquanto que nos hospitais os apoios são mais centrados em situações de saúde agudas. Para além da saúde, João esteve ligado durante muito tempo à política, sendo deputado do Partido Comunista Português (PCP) na Assembleia da República.

Ponto de situação 

Questionados sobre a faixa etária que mais frequenta as unidades de saúde onde trabalham, Maria e João contam que a maioria dos utentes que atendem são idosos. “De grosso modo a população do Alentejo é uma população muito envelhecida e por isso são claramente aqueles que procuram os serviços de saúde e também são aqueles com mais problemas de saúde”, relata o enfermeiro João. Segundo os dois enfermeiros, as patologias mais frequentes relacionadas com esta faixa etária são essencialmente diabetes, insuficiência cardíaca, doenças oncológicas, doenças pulmonares e hipertensão.

Relativamente ao acesso à saúde, os peritos alegam que o maior obstáculo está direcionado para a falta de recursos humanos e para a enorme dispersão do distrito. Ambos contam que existe uma má gestão no que concerne à colocação de médicos e enfermeiros nos hospitais e centros de saúde. No entanto, João Ramos relata que a organização dos médicos de família é um tópico bastante sensível, porque como não há apoio que chegue para todos, é adotado o recurso de contratação de clínicos, que consiste na contratação de médicos para resolver apenas uma situação.

Conta ainda que o foco dos cuidados primários e dos médicos de família é a frequência e o acompanhamento. “Cada pessoa deve ter um médico de família porque é importante do ponto de vista de acompanhar aquelas doenças que devem ser vigiadas, ter um acompanhamento regular, para que não agravem.”

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“Eu sinto mais dificuldade na resposta quando necessito de encaminhar os meus pacientes para especialidades médicas.”

João Ramos

49 anos

O enfermeiro João aprofunda a sua explicação sobre a organização de médicos, explicando que estes devem ser responsáveis por uma população de cerca de mil e quinhentas pessoas. “Se nós pensarmos que a aldeia tem trezentos cidadãos, isto equivale à quinta parte dos mil e quinhentos, ou seja, para esta população devia estar disponível um dia por semana. Porque se a semana tem 5 dias, se calhar o que devia estar disponível para essa população era um dia por semana para depois as outras mil e duzentas pessoas usufruírem dos outros 4 dias.”

Existindo um número considerável de aldeias, os responsáveis pela colocação de médicos e enfermeiros devem ser capazes de equilibrar as contas. No entanto, o que acontece é que esta deslocação é bastante desequilibrada. Por vezes “estar a deslocar de uma para a outra já não é o mesmo que ter 1500 utentes aglomerados apenas em Moura.”

João acrescenta que esta falta de gestão influencia no processo de acompanhamento dos pacientes e do seu historial médico, onde “para alguns que estão em situação de doença, isto pode ser problemático, pois devido à substituição feita pelo médico de família presente por um que trabalha à tarefa, não terá a mesma atenção e preocupação.”


“No hospital de Beja só existem dois cardiologistas que são marido e mulher, por isso quando um vai de férias o outro também vai e isso não pode acontecer.”

João Ramos, 49 anos


Efetivamente, existem vários episódios de desistências e cancelamento de consultas por razões desconhecidas. João Ramos conta que este é um problema difícil de evitar, uma vez que, no início do mês, os médicos não conseguem prever a agenda para o mês inteiro, já que existe a possibilidade de serem chamados para fazer formação ou prestar serviços de vacinação. Todavia, João demonstra mais ênfase sobre o sentimento de incerteza dos pacientes.

“Isso é mais que preocupante, no ponto de vista de se a pessoa perceber que de repente ficou doente, sentir que tem disponível auxílio, desta forma não irá gerar ansiedade. Por isso, a melhor forma de combater a ansiedade é havendo regularidade. Às vezes o que o médico faz é, por exemplo, quando calha num feriado, já não vem e depois essas consultas são transferidas para outro dia.”

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“Às vezes é surreal ver aqui no hospital um médico a fazer 40 consultas. Eu não acredito que ao final dessas consultas ele tenha a mesma atenção e paciência como tinha para os primeiros utentes”

Maria Ventura

50 anos

O ambiente hospitalar que Maria Ventura descreve é semelhante ao referido por João Ramos. Maria expõe que não existem médicos necessários para ocuparem as vagas de consultas, motivo pelo qual são chamados médicos de outros distritos para fazerem urgências de 24 horas de várias especialidades. “Por exemplo, nos cuidados intensivos temos os nossos médicos, mas também como estes não são suficientes para preencher a semana, vêm os outros médicos de Lisboa ou Beja que vão rodando, fazem uma escala. Essa escala é feita no início do mês, e de acordo com as disponibilidades de cada, a gestão acaba por ser feita assim.”

Desta forma, a enfermeira descreve que é frequente existirem demasiados pacientes para um só médico ou enfermeiro, o que leva, por vezes já no final de um dia de trabalho, a existir menos atenção e preocupação pelos seus pacientes.

Focando-se na realidade do litoral do Alentejo, Maria conta que existe também uma certa desmotivação por parte dos enfermeiros para se deslocarem para o Alentejo. Segundo esta, “o nível de vida equivale ao mesmo que na periferia de Lisboa”, devido às refinarias da zona industrial de Sines, onde a função operária recebe um ordenado consideravelmente elevado. Esta situação influencia diretamente na gestão financeira dos enfermeiros, que levam um ordenado insuficiente para esse nível de vida, levando-os a optar pela imigração.

“O nosso estado não dá apoios nenhuns na formação dos enfermeiros.”

No seguimento do raciocínio, a enfermeira levanta a problemática da desvalorização da profissão do enfermeiro. Justifica dizendo que a migração é frequente, posto existir uma enorme procura por enfermeiros de Portugal, graças à sua densa formação que, segundo esta, não é valorizada pelo próprio Estado português. Já no que diz respeito à dispersão no Alentejo, Maria demonstrou uma maior preocupação quando comparada ao enfermeiro João, pois trabalha num serviço onde recebe pacientes vindos de toda a região alentejana, e que, na sua maioria, são idosos que percorrem vários quilómetros em condições precárias.


“Há pessoas que morrem na ambulância antes de chegarem às urgências devido à enorme distância a ser percorrida com estradas péssimas.”

João Ramos, 49 anos


Sobre este tema, João Ramos afirma que, mesmo que ainda tenham capacidade de resposta para algumas situações do hospital de Beja, existe um défice de serviços que não se encontram disponíveis no distrito do Alentejo, o que leva à deslocação para o hospital de São José em Lisboa. “O problema do acesso é o problema da dispersão. Por exemplo em Barrancos, que está a mais de 100 quilómetros de distância do hospital de Beja, podem ter pouca população, mas existem sempre pessoas que precisam de ajuda médica.”

Santo Amador é apenas uma das aldeias de Portugal que vive nestas condições, mas existem mais, e muitas delas em situações ainda piores. Num país que, de acordo com o Global Retirement Index 2020 da International Living, ocupa o primeiro lugar na categoria de Saúde, sendo assim considerado o melhor país do mundo nos cuidados de saúde, os dados não refletem a realidade, especialmente nos cuidados primários. A população que requer uma maior preocupação no que concerne à saúde vê-se facilmente esquecida se não pertencer a uma grande concentração populacional.

Créditos

Mariana Machado 20200345
Marlene Pica 20200632
Matilde Inês 20200584

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